"Você provavelmente pensará que esse é apenas mais um blog de corrida. Bom, até poderá mesmo vir a ser, mas, de fato, ele hoje começa com o propósito de ser diferente. (...) Esse é o blog do anônimo. Do corredor que se esconde no meio de uma multidão na largada de uma prova internacional ou de uma pequena prova de 5 km em uma cidade qualquer por aí. (...) Esse pretende ser um blog feito sob medida para nós, meros mortais iniciantes que um dia experimentamos a maravilhosa sensação de calçar um par de tênis, colocar no pulso e no peito uma coisa esquisita chamada frequencímetro e que meio sem saber onde se metia exatamente, escutou o seu primeiro "Largou!". E, pobre de ti alma perdida, se apaixonou..."


Sábado, Novembro 07, 2009

Eu x Eu Mesma



Ninguém gosta de fracassar, mesmo que, para os padrões de normalidade, esse seu fracasso seja, em verdade, muito superior ao que a grande massa estaria habituada a fazer.

O fato é que fracasso é uma medida absolutamente particular e intrínsecamente ligada a fatores emocionais, psicológicos e comportamentais singulares. Ou seja, na melhor linguagem popular: "cada um, com seu cada um...".

E desde que me senti literalmente fracassando na Meia do Rio 2009, ao correr apenas os 7km iniciais, ainda que não estando em uma fase de melhor desempenho e sem treinos regulares durante meses, foi que acompanhei crescer no meu peito um sentimento marcante de inconformismo e indignação.

Ok, estou plenamente consciente das dificuldades que, em meu caso, são bastante representativas e que dificultam mesmo o treinamento constante e regular. Porém, estou igualmente consciente de que muitas vezes ainda me falta sim, aquela determinação quase kamikaze de acatar docemente o chamado do relógio às 5h45min da manhã, sem permitir que o corpo cansado vença a batalha de permanecer na cama.

Ok, estou consciente de que vivemos nossa vida em fases, em etapas, cujos ritmos são muitas vezes ditados não pelo que gostaríamos de viver, mas pelo que precisamos realmente enfrentar.

E durante esses últimos meses, desde então, convivi árduamente com essa tal indignação como uma espécie de companheira de rotinas diárias, mas muitas vezes funcionando mesmo quase que como uma insistente algoz.

E me cobrei pelo peso. E me cobrei pela indisposição. E me cobrei pela agenda. E me exigi reagir, não importanto se pela milésima ou pela última vez, mas tendo em mente apenas a essencialidade de retomar sempre.

É o chamado compromisso com a não desistência, mas que hoje já percebo ser uma etapa fundamental e instransponível para chegar à frente, e bem, ao almejado compromisso com a disciplina e a constância.

Pois bem, foi com esse pensamento e esse espírito, que exatamente um mês depois de ter me sentido fracassar na Meia do Rio 2009, cruzei, emocionada como se fosse a primeira prova, a linha de chegada da Meia Maratona de Buenos Aires, ainda carregando alguns bons quilinhos indesejáveis a mais, mas novamente dona do meu melhor tempo já feito em Meias até então.

E voltei a treinar.
E voltei a respirar.
E voltei a sonhar.
E fui à nutricionista.
E os quilinhos intrusos estão partindo.
E por dias dormi e acordei cedo.
E por dias fiz tudo que deveria ser feito.

E algumas semanas depois, cheia de um orgulho tolo (é verdade...) por ter conseguido provar mais uma vez a mim mesma em Buenos Aires que posso vencer obstáculos com ainda mais facilidade do que muitas vezes imagino que poderia, larguei, algumas semanas depois, na Nike Human Race 10k no Rio, de forma absolutamente tranquila e certa de que o desempenho se manteria.

Well, well... Engano, sonho, tolice, ilusão.

Esqueci de alguns fatores extremamente importantes, em minha opinião, quando o assunto é corrida. Esqueci novamente da alimentação adequada, do sono tranquilo e renovador e acima de tudo, esqueci do quanto o fator psicológico é dominante e determinante nisso tudo.

E naquele domingo, larguei na Human Race me sentindo já inicialmente cansada, com sono e sem muita disposição, ainda que dominada pela emoção intensa, que já vinha carregando no peito há dias, de estar correndo a prova junto com a querida equipe de Brasília que apresentou um belíssimo desempenho no Desafio 600k SP-RJ.

Mas o calor daquela manhã estava quase insano... E cruzar o Túnel da Barra totalmente no escuro e abafado, absorvendo aquele cheiro de fuligem e de fumaça impregnados em suas paredes, realmente não ajudaram em nada. Ao contrário, foi ali que já comecei a esmorecer e que pensei seriamente em desistir.

Dali para frente passei a brigar intensamente com meu emocional, praticamente aos gritos por dentro, dizendo para mim mesma que podia, que já tinha feito melhor e que não me permitiria desistir de forma alguma.

Só que foi justamente nesse dia que quem berrou braviamente comigo foi meu corpo. E ele me mostrou com muita firmeza que correr é muito mais do que simplesmente calçar um tênis último tipo, vestir o short de grife recém comprado, ligar o Ipod e partir. Pela primeira vez me senti muito mal fisicamente numa prova, sendo que o mais curioso foi isso não ter acontecido em uma competição longa ou um em local desconhecido, mas justamente ali no meu próprio quintal, em minha própria cidade e em um percurso já bastante conhecido.

Sucumbi e aindei muitos quilômetros, subindo aquela Av. Niemeyer que gosto tanto de correr, irritadíssima comigo mesma e desejando não ter sequer levantado da cama naquela manhã. Entretanto, ainda assim continuei e quase arrastando meu corpo, fui por ali afora me exigindo ao menos chegar. Nunca senti o Leblon tão distante como naquele dia. Até chegar lá, pensava e argumentava comigo mesma que se aquilo estava acontecendo, era por exclusiva conta de minhas próprias escolhas e fraquezas, que se eu sucumbia, era porque atendia manhosamente ao apelo do corpo todas as manhãs em ficar só mais um pouquinho na cama, porque eu insistia em dormir tarde e porque teimava em comer errado.

Ok, escolhas e colheitas. Não há como fugir delas.

E continuando aquela louca empreitada, finalmente fechei o percurso. E foi exatamente naquele momento, ao diminuir o passo aliviada e ao desligar o frequencímetro, que fiquei ainda mais irritada comigo mesma, porque simplesmente percebi, que apesar de tudo isso, eu havia cruzado a linha de chegada em apenas 5 minutos a mais do que habitual termino as provas de 10k. Ou seja, naquele momento para mim não havia espaço para comemorações pela superação porque meu pensamento estava todo voltado para o "Ah... se eu tivesse dormido mais cedo, ah, se eu tivesse treinado bem nas últimas semanas, ah, se eu isso, ah, se eu aquilo..."

Triste e ainda me recuperando do impacto, comentei na chegada com alguns amigos corredores da equipe a sensação durante a prova e fui surpreendida ao ouvir muitos deles igualmente reclamando do sofrimento assim como eu, também indignados com seus tempos líquidos e atribuindo isso ao calor e ao calorento Túnel.

Mas a vida ensina sempre e, de forma muito interessante, bem ali no meio daquela indignação de corredores cujos paces variam entre 4,5 e 6,5, uma senhora, também corredora, tocou meu braço levemente, meio sem entender o que acontecia, e disse: "- Mas escuta, você correu muitíssimo bem, nâo acha?"

E exatamente naquele momento minha ficha caiu. Ploc.
Ai, que vergonha de mim mesma.
Exigência demais.
Radicalismo demais.

Ok, é fato que preciso me impulsionar a correr melhor, a comer de forma mais disciplinada, a perder peso, a treinar com a regularidade necessária, a atingir as metas definidas, a traçar novos objetivos e estabelecer o planejamento consciente e consistente para cumprí-los, mas percebi que, de forma alguma, posso cruzar a fronteira rumo a uma exigência extremada, quase pueril, e permitir que me sinta perdedora ou fracassada por não atingir eventualmente os resultados pré-definidos.

Tenho que manter sempre em mente que sou corredora sim, mas que também sou mãe, profissional com uma agenda muito cheia e agitada, filha, mulher e que, portanto, tenho cólicas, TPM e mal estar, que sou carioca e enfrento trânsito, que durmo tarde porque saí igualmente tarde do trabalho e que justamente naquele dia que eu previ o treino longo, eu não consegui sequer almoçar por causa da reunião.

Tenho que firmar em mente que sou gente, ora bolas! Que sou amadora e que isso faz toda a diferença. Tenho que lembrar que não sou atleta de elite e que isso não é nenhum demérito, porque um atleta profissional acorda cedo, dorme cedo, passa o dia todo apenas focado em seu treino e metas, que aquilo é a sua vida, o seu ganha-pão, que a sua alimentação é adequada e regrada e que toda a sua rotina é pensada para a corrida e ponto final.

Não, de forma alguma estou fazendo aqui apologias ao "então tá, qualquer coisa está bom...". Não mesmo. Estou defendendo o bem-estar e o conquistar uma estrada asfaltada, com percurso sólido. Lógico que temos que nos desafiar sempre a melhorar, a crescer, a realizar. O ser humano é movido a impulsos e desafios. É certo que devemos nos exigir, nos cobrar, criar estímulos para alavancar, mas, acima de tudo, não podemos deixar de ser justos conosco, de ser e estar equilibrados.

Essa é, para mim, a essência da busca - atingir o EQUILÍBRIO e harmonizar-se com a RESPONSABILIDADE.

Equilíbrio para reconhecer as fronteiras e seus limites individuais.
Responsabilidade por nossas próprias escolhas.
Responsabilidade e equilíbrio no trato com seu corpo e sua mente, negociando consigo mesmo as possibilidades, de forma inteligente e adequada.
Avançando quando possível e recuando quando necessário, sem melindres, sem exageros, sem armadilhas psicológicas.

E foi exatamente assim, com esse pensamento firme e reto, que traçei as novas metas para 2010. Metas com prazo para começar, com limites máximos e mínimos claramente definidos para o desempenho, consciente de que ainda preciso primeiro finalizar algumas etapas da obra estrutural para efetiva e solidamente partir para a construção da morada sobre elas.

Bem, ao final de tudo isso, fica a lembrança da lição primordial nessa trajetória - é assim que corremos... Apenas e sempre, contra nós mesmos.

Sábado, Setembro 19, 2009

Nos trilhos holográficos da jornada

E lá vamos nós... Pequenos leds conduzidos pelo sobe e desce dos frequencímetros, aprisionados no up and down das balanças, embalados no acelera e reduz da vida moderna, relaxando no vai e vem dos aviões.

Hoje a realidade das grandes cidades, muitas vezes tão distante das cenas adoravelmente iluminadas e charmosas das novelas das 21h, nos traz a percepção quase aflitivamente segura de que estamos vivendo no Mundo de Alice, personificando aquele pequeno coelho do relógio, sempre elétrico, tenso e agitadinho.

Nosso tempo livre fica cada vez mais esprimido e encolhido entre o deslocamento, o engarrafamento, a rotina de trabalho mais e mais esticada, a atenção aos afetos e os compromissos diversos que nos roubam preciosas pequenas horas e porções desse nosso já tão pequeno diazinho, inho de módicas 24 horas.

E com muita frequência nos enxergamos subindo rapidamente no vagão de um trem já em movimento, surfando em pé em busca do equilíbrio para não deixar cair a peteca, para não quebrar o salto alto e não dizer adeus à escova, para não perder e largar a mochila, para não deixar a papelada voar porta a fora.

Putz... Onde? Caiu? Alguém viu?
Perdi meu laço dourado, Mulher Maravilha! Help!
Bom, mas quem consegue afinal ter aquela cinturinha irritantemente fina de pilão hoje em dia? Céus...

O curioso desse filminho clichê é que justamente quando o trem se prepara para enfrentar aquela curva imensa, é que muitas vezes percebemos que podemos. Podemos sim. Que devemos, que queremos, que vamos. Que é plenamente possível simplesmente rearrumar o esquema das coisas, mudar alguns pequenos detalhes que fazem toda a diferença.

É exatamente nessa fração congelável de um segundo que pode ser eterno em si mesmo, nesse espirro (atchim) entre a percepção, a tomada de consciência e alguma cena impositiva subliminarmente ao nosso sentir, que ótimas decisões são tomadas, nos conduzindo pela mão bondosamente de volta ao ritmo, ao trilho, ao rumo.

Páre já, agora mesmo, que eu vou sim descer desse trem!

Mas quando o grito veio já me vi lá fora. Já estou no gramado lateral calçando meus velhos tênis. Já fiz as pazes com o frequencímetro. Já vesti a malha levemente apertada. Já lavei a alma dando bye-bye àquela louca máquina que vejo partir no horizonte.

Corro, lógico que corro. E gosto, quero, sigo.
Luto, lógico que luto. E me alimenta, me energiza, me encaminha.
Creio, amo, sonho.

Mas foi há muito que aprendi a ser dona do meu trilho, a perceber quando ele precisa de reparos, a retirar o mato que cresceu em volta e que começa a atrapalhar a trajetória, mas principalmente, a criar com minhas próprias mãos os necessários retornos, atalhos e belas paisagens, mesmo que muitas vezes toda essa dedicação me exija um tempo inicial de preparação ou uma pausa breve para o café.

E foi exatamente assim, envolta pelas imagens projetadas para fora de mim, misturadas e sobrepostas no ar como hologramas, instigantemente inspiradoras como a daquele lindo salto agulha vermelho de verniz (ainda que nem sempre o pobre diabo vista Prada...) que ficou ali largado por mim no vagão daquele trem após ser trocado or um salto levemente mais confortável ou, ainda, a daquele mergulho gelado e solitário no mar em dia de fina chuva, lavando o suor mais profundo e entranhado da alma... exatamente assim, que reforcei novamente o nó do tênis, respirei profunda e suavemente e voltei a voar baixo.

E foram nessas novas semanas de retomada que cada vez mais e mais me enamorei da certeza de que somos invencíveis. Sim, e absolutamente incríveis. Nos basta um motivo, um abraço, um incentivo, uma imagem, um sentimento, um cheiro, uma cor, uma dor, uma vontade, um não sei mais o quê.

Só sei que basta o movimento íntimo do se abrir, basta a alta conexão, basta o desejo de olhar para fora da sua janela, basta a certeza de que o sol sempre atravessará a vidraça para nos lembrar de que existe vida além dos sarcófagos que construímos para nós mesmos todos os dias, das mais diferentes formas.

E assim, o velho momento do descobrir seu espelho:

Qual sua motivação? Um amigo, um grupo, um novo amor, uma prova, um vestido antigo, um mimo, o verão, apenas você?

Qual sua meta? Tão somente até aquele próximo poste? Não andar? Emagrecer? Conhecer pessoas? Correr aquela prova? Simplesmente sentir que está ali?

Realmente não importa.

As motivações e as metas são apenas aquelas imagens holográficas que enxergaríamos projetadas da cabeça dos corredores que vemos cruzar as praias de nossa vida embalados pelos mais diversos sons da vida.

Verifiquei os trilhos. Apertei os parafusos. Arranquei o mato. Soprei as pequenas nuvens do cansaço e do desânimo para o outro lado do oceano. Aumentei a luminosidade do sol. Aqueci a água do mar. Enfeitei meu corpo com as flores do campo. Soltei os cabelos ao vento. Namorei com a lua. Abri os braços. Apertei o passo. Acertei a cadência e fui...

Apenas fui.
Velejando rumo a novas metas, novos trilhos, novos caminhos.

Agora, apenas feche os olhos, respire e igualmente encontre um todo seu.
Encontre aquele só seu.

Segunda-feira, Setembro 07, 2009

Chances - Um Novo Jeito de Voltar a Si Mesmo


Abrid la mente - Santaflow



Chances?
Onde?
Como?
Você viu passar?

Cada um com sua história, cada um com seu momento, cada um (com seu cada um), de forma muito particular, entendendo sua própria dinâmica e enxergando chances, concretas ou não, em situações, pessoas e cenas que nos surgem sem parar no incessante girar das lentes caleidoscopionianas de nossos olhos curiosos.

Cenas que passam por nós muito frequentemente, rápidas e distorcidas, quase como que pinceladas numa tela impressionista gigante, quase que vistas por olhar expectador debruçado na janela de um táxi.

Rostos, expressões e sensações. Inquestionavelmente um mix de elementos que nos fazem reescrever e reviver histórias, sempre ali, ao alcance de nossas mãos, ao sabor de nossas decisões.

E sempre, na retomada desse percurso de reescrita tão pessoal e singular, muitas maneiras igualmente customizadas de se repetir algumas conhecidas experiências sem que necessariamente seja atingido o mesmo resultado final na velha estrada.

Mas o que teria alterado aquele rumo?
Uma escolha?
Um pensamento?
Medo?
Dor?
Insegurança?
Um toque?
Ou simplesmente o nada?
Talvez apenas mais um cair do sol nas areias do Leblon.

Como fato e testemunha, apenas a constatação de que temos mesmo, e sempre, muitas possibilidades à nossa frente de transformar adversidades em novas chances, de revestir possíveis fracassos em oportunidades, de literalmente lipoaspirar o peso da vida sobre nossos ombros.

Oportunidades tão só suas, muito íntimas, ligadas por finíssimas e tênues linhas às suas próprias vivências anteriores, às suas expectativas, ao momento que ali se apresenta coberto de nuances e tons.

Chances que para si mesmo são verdadeiramente únicas, ainda que muitas vezes incompreensíveis, incompreendidas e não representativas, em absoluto, para o mundo lá fora.

Apenas viver, vivenciar, sentir, vibrar, deixar fluir, permitir, transgredir positivamente, se divertir.

E foi com a alma embebida desses pensamentos e sensações que simplesmente não corri a Meia do Rio esse ano.

Não corri, não me exigi, não me impus, mas ainda assim, eu estava lá, pertinho da velha dama das 17 mil pernas e braços, sentindo a intensa vibração daquela onda humana cruzando uma Cidade feito cometa rasgando o céu, espalhando alegria e esperança de que sim, é possível fazer diferente por si mesmo.

E assim eu fiz. Diferente. Saboroso. Divertido. Curioso. Impertinente.
E carinhosamente recebi minha quinta medalha de prova diretamente das mãos de um querido amigo como um presente pela gostosa cara de pau de assumir o meu próprio não querer.

E que sabor o dessa medalha... O sabor exótico de saber que eu não preciso provar nada para mim mesma, apenas respeitar o meu momento.

Larguei em São Conrado lado a lado com os queridos afetos e subi a Niemeyer contrariando o desaforado cavalheiro que dizia que aquela moça ali não chegaria até a curva (muita cara de pau, não é, não, ô Cidadão?). E avancei, estabelecendo um acordo velado com meu próprio corpo de que o trataria novamente melhor quando a insana onda no trabalho diminuísse e eu retomasse com firmeza os treinamentos. Cruzei a ladeira mais linda do Rio dessa vez com ares de turista. Observando tudo e todos. Observando reações, movimentos e sinais, ouvindo apenas novos ruídos, minha passada e reconhecendo meu próprio ritmo. Cheguei ao Arpoador e ali finalmente terminei minha prova aquele dia.

A dama veloz dona da cauda do cometa já ia longe e para mim tudo era diferente, até a luz.

Parei, respirei, olhei o mar e coroei a minha decisão de não correr naquele dia. Tirei o tênis, a blusa e entrei nas águas de uma Iemanjá bravia naquela deliciosa manhã nublada. Tomei uma água de côco, reposicionei o uniforme e fiz, tranquila e conscientemente, o sinal para um... táxi.

Sim, para um táxi!

E fui de encontro à nobre dama com 17 mil pernas e braços multicoloridos. Ela me esperava no Aterro para ao lado dela vibrar nesse mais um ano de gotas e gritos quase selvagens testemunhas do "eu consegui!". Mas ela sabia que esse ano eu seria apenas sua nova namorada, apenas singela expectadora, apenas o escriba daquela navegação longa e silenciosa pela terra Carioca.

E cruzei todo o percurso abordo do táxi amarelo. E vi cada um dos afetos travando de forma diferenciada seu próprio percurso. E o estranho é que, diferentemente do que se esperava, me senti parte tão integrante de tudo aquilo como em qualquer outro ano preocupada com o sobe e desce do frequencímetro, sofrendo com o cansaço ou gritando comigo mesma de que não era hora de parar de forma alguma.

E os afetos passaram por mim, um a um e a cada um deles mandei de longe um pouco de nova alegria e de boa energia.

E transgredi... Deliciosamente, transgredi e retomei o último km bem ali, no meio da multidão exausta, cruzando a linha de chegada e a encontrando como eu nunca, nunca a havia visto, inteira, revigorada, divertida, emocionada e curiosa.

O mais sensacional da meia que eu não corri foram as deliciosas comemorações que se seguiram. As divertidas histórias contadas, vividas e alimentadas em um abraço coletivo tão saboroso de ser sentido e descoberto.

Você que está lendo isso, indignado ou não com a cara de pau dessa eterna corredora reincidente, há que questionar: "-Mas o que afinal ela quer dizer com tudo isso em um blog voltado para o incentivo à corrida? Será que ela quer avisar que corrida e sofrimento andam atrelados?"

Exatamente o oposto, companheiro. A resposta, se é que existe uma padrão, é que para tudo na vida existe um momento, o momento e que tudo que aparentemente possa significar um triste e infeliz fracasso, em verdade pode se transformar em uma belíssima forma de se reapaixonar, de reacender a velha chama e de se auto-motivar. Mas significa, acima de tudo, que seu bem-estar deve necessariamente vir em primeiro lugar e que o respeito aos limites de seus corpos físico, psíquico e psicológico devem servir de verdadeiro mestre, guia e mentor.

E que venha Buenos Aires, então!
Será?
Tudo é possível... Basta decidir, seguir e acolher-se.

Domingo, Maio 17, 2009

A Duquesa e as Borboletas

Acordou com alma de Duquesa moderna.
Tudo o que ela queria naquela manhã de outono era simplesmente tornar o habitual vestido de veludo tão pesado no mais leve e fluído voil.
Queria apenas correr solta, musa, ligeira, sonhadora por aqueles verdes campos sentindo o sol beijar-lhe a face.
Levantou, envolveu-se em fina e confortável veste adornada com borboletas multicoloridas, nos pés os preferidos pisantes, penteou os longos cabelos como se estivesse indo ao baile e vestiu na alma as cores cor de vida de que dispunha naquele momento.
Desceu as escadas apressada e saiu.
Partiu de encontro a sua liberdade.
Colocou os dois pequenos pontos de encontro com a música pertinho dos ouvidos delicados e ligou seu escudo contra a mediocridade e a mesmice que via lá fora.
Partiu.
Cruzou vales, ruelas e esquinas sem forçar seu corpo.
Chegou ao mar, fez reverência aos céus e aos deuses, pediu permissão à vida para atravessá-la em disparada deixando apenas rastros de cor atrás de si.
Sentiu o calor de alguns olhares. Sim, interessantes olhares, era de fato verdade, mas que a ela naquele momento nada falavam, nada importavam, não existiam.
Ela estava só.
Queria estar só.
Queria apenas voar.
Atravessou a última alameda guiada pelas asas de suas borboletas quase multifloro e chegou à beira do lago que o rio houvera criado outrora.
Conversou com ele no íntimo de seu coração e dispôs-se a abraçá-lo inteiro, a reconhecer sua luz única naquele dia lusco-fusco onde só ela e suas cores eram fontes de brilho e alegria.
Encontrou sorrisos amáveis, sentiu abraços saudosos em rápidas paradas no percurso, mas seguiu sem se deixar abater.
Tinha uma meta e foi ao tentar cumprí-la que encontrou consigo mesma ali, bem ali, na beirinha daquela água onde os cisnes brancos brincam de nadar serenos.
Correu.
Voou.
Respirou.
Elevou-se.
E quando parou novamente bem pertinho do mar, lembrou que já era hora de retornar ao mundo.
Resignada, desligou o aparelho anti-simploriedade e voltou a dizer olá ao mundo cinza cor de inverno que existia além daquela bolha de sol.
Correu.
Acordou.
Retornou.
Voou.
Mas sempre poderá retornar, ela e suas borboletas.

Domingo, Abril 19, 2009

Respingos na mente


Purple rain - Randy Crawford


Uma chuva fina e gélida envolvia as ruas do Leblon.
Eu me abrigava entre paredes décor, pratos quentes e muita gente invisível com ar de solidão.
Mas foi nesse cenário, que num súbito relance, me percebi novamente só.
Vesti meu short, o sustentador top amigo das corredoras principalmente em dadas épocas do mês em que os seios doem (sim, companheiro, doem...), disse oi novamente para o tênis, olá para o frequencímetro e lancei mão do rabo de cavalo.
Me permiti.
Fui de encontro aquela fina chuva do início do inverno e disse "-Muito prazer!", me apresentando ao serviço com boa vontade e disposição.
Em retribuição ao reverente cumprimento, senti seu abraço molhado, inicialmente frio, transmutando-se em contato com a calorosa energia emanada do meu corpo em movimento.
E em meio aquela magia momentânea, minhas passadas tornaram-se firmes como aço cortante incidindo sobre prato gourmet. Minha respiração virou fonte de calor ao ambiente e minha mente transformou-se em afiado cutelo em mãos especializadas, aguçadamente treinadas, dirigindo meu pensamento para além, muito além de onde meus pés inoxidáveis me direcionavam.
E aquela misteriosa fina chuva continuava lá.
Impulsionando-me a seguir em frente, me lembrando das saborosas oposições do viver - o doce e o salgado, o denso e o leve, o cremoso e o consistente, o sólido e o líquido, o esforço e a recompensa, o suor e o sorriso, o empenho e a vitória.
Já avistava o fim da longa estrada que trilhava quando ao perceber o sonoro e alto tilintar de um metal caindo ao chão, retornei.
Uma voz me guiava no voltar:
"- Sra., seu prato... Perdão, trarei outro talher imediatamente."
E na velocidade do som lá estava novamente eu, por entre guardanapos e garçons, por entre facas, queijos, beijos, olhares e gula, escondida de mim essencialmente e abrigada pelas paredes daquele templo de consumo.
Mas eu corri... Ah, sim, corri.
Eu realmente estava lá fazendo amor com aquela gélida e desafiadora chuva fina.
E concluí:
Correr definitivamente começa com a mente.

Sábado, Março 14, 2009

Retomada


Viva La Vida - Coldplay


- Pode me passar a loção pós-sol? Minha pele está ardendo.
- É... Você está bem vermelha hoje. O que houve?
- Corri sem protetor solar...


Calcei os tênis preferidos que fizeram uma verdadeira algazarra ao sair da caixa e os ensinei a ficar cheios de areia fina da Praia de Ipanema, indicando que agora ali passaria a ser seu novo habitat.

Ouvi as observações de ambos de que agora não havia mais o contato do barro vermelho do cerrado e que tudo estava estranhamente novo. Diferentemente velho. Curiosamente interessante.

O corpo também achou tudo pintado em nova cor. O suor voltou a aparecer. A pele voltou a ser motivo de real preocupação pela presença constante do sol e do sal, do céu, do mar.

Amém.
A locomotiva voltou a andar.

A trégua para tanta novidade vem com os treinos noturnos na Lagoa e a suave brisa que acaricia a pele lembrando a beira do lago do Parque da Cidade.

É fato que o stress invariavelmente torna-se novamente companheiro e que a mochila volta a ser gigante para carregar tanta coisa, de cá para lá, de lá para cá.

A vida entra novamente na reta de aceleração, mas é animador estar de volta ao trilho. Mesmo sem tempo, mesmo cansada muitas vezes, mesmo tendo que reaprender na lanhada a lidar com a correria da vida na metrópole.

É alentador saber que só depende de mim calçar os velhos tênis e ir de encontro a mim mesma, de encontro ao mundo, de encontro a vida, rumo aos velhos e novos bons hábitos.

É sensacional a sensação de liberdade de saber que acertar e errar, fazer bem ou mal e, ainda, simplesmente não fazer, melhorar ou piorar, ter preguiça ou ânimo, calçar o tênis ou prostar e apiedar-se de si mesmo, só depende de mim... De minhas escolhas, de minha consciência, de minha reatividade. De mim e de mais ninguém.

E nada como colocar o short curto, as pernocas de fora sem vergonha e ter a coragem de se assumir (sem querer sumir). Gordo magro, pseudo magro, falso gordo, com ou sem celulite. E viva a celulite! Nem aí... Ao menos não as tenho na mente...

E viva o protetor solar, meu par de tênis, o mp3, o suor caindo no rosto e o banho de mar ao final.

Viva la vida, afinal.

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

A locomotiva e o freio


TREM DAS ONZE - DEMONIOS DA GARÔA



Lá venho eu novamente falando de recomeçar...

Sim, recomeçar mesmo. Recomeçar sempre, porque afinal o que é em verdade a vida senão uma sequência de recomeços desafiadores?
Confusos, previsíveis ou incontroláveis, mas sempre impulsionadores.

Estamos lá, todos nós, numa estação qualquer do percurso.
Parados, inertes.
Estabelecemos um alvo, uma meta e nos direcionamos para ela.
Buscando ritmo e constância, produtividade e qualidade.
Cobertos de sonhos, de medos, de dor, de ansiedade, de vida, afinal.

E o curioso é que muito comumente, já na metade do percurso percebemos nossos olhares indo além, bem além... Mirando algo ainda mais à frente do que já supomos um dia alcançar.

E vamos a diante, tal qual locomotivas imprimindo maior ritmo para atingir mais rapidamente o ponto definido e logo após o outro e o outro e o outro... Infindavelmente.

Mas locomotiva pára uma hora, não?
Olhe, e não é mesmo fácil impor ao gigante de ferro assim uma súbita parada. Muitas vezes é impossível mesmo, afinal seu perfil é o do viajor; sua alma, a do caixeiro viajante; seu espírito, o do condor.

Acho que fiquei com essa cena firmada no inconsciente ao londo desses últimos dias.
A cena de uma locomotiva parando.
Tudo isso porque escutei essa semana, ali naquele restaurante que sempre amei, comendo aquela comidinha que sempre gostei, um casal da terrinha conversando sobre as características do trem bala europeu e de sua peculiar necessidade de prever 50 km para aceleração e mais 50 para desaceleração e parada.

Pronto, apenas virei a esquina e lá estava eu me sentindo um trem bala.
Bom, talvez, em realidade, uma velha e charmosa locomotiva...

Já escuto daqui os amigos rindo e dizendo que sou mesmo exagerada. Pode ser, mas longe de qualquer analogia ao corpitcho não tão mais poderoso e estiloso dos novíssimos trens balas atuais, pensei mesmo foi na mudança, em mudança, em parar, ficar, andar, voltar... recomeçar.

Entendi dentro de mim que exatos 3 anos atrás acelerei por 50 km. Peguei minhas malinhas e panos, entrei no trilho e segui rumo ao DF. Percorri milhas e milhas até chegar ao vale florido onde habitavam cores, amores, saudades, cachoeiras, amigos leais, corações e paz.

Bom, mas era hora de desacelerar e percorrendo mais cinquentinha de muita caixa, pó e estrada, cá estou eu de volta ao Rio de Janeiro, com as mesmas malas, cuias, novas experiências, histórias e novamente os tênis na caixa.

Putz...

E assim me dei conta de que, voltando aos mesmos velhos lugares de tempos idos, revisitando paragens, reconhecendo pessoas e revendo amores, ainda assim nem mesmo as dores são mais as mesmas.
Mudamos. Mudamos sempre.
Ilusão imaginar que a paisagem daquela corridinha diária realmente não nos afeta, não nos ataca.

E a mesma velha e boa locomotiva que percorre as ferrovias não sai imune ao tempo, ao vento e à vida.
Seu metal se ressente da chuva, brilha pelo sol e agradece a carícia do vento.
Seus vagões e bancos lembram e sentem falta de quem ali já viajou.
E ela como testemunha do tempo, fica ali vendo vidas mudarem como mudam as floradas. Vendo novos casais se formarem enquanto outros deixam de ser. Vendo metas serem alcançadas enquanto outras são deixadas de lado. Testemunhando voôs e a reescrita de suas novas rotas.

E assim é com o tênis. Dentro e fora da caixa.

Acelerar é mesmo difícil, mas parar ainda mais.
Retomar o ritmo, torturante; mas acostumar-se com ele, aprisionador.
Dicotomias.
E novamente e sempre, elas.

Correr em velhos lugares, cansativo; em novos, desafiador e assustador muitas vezes, mas em novos velhos conhecidos cantos, uma surpresa absolutamente instigante a cada passada.

Será que consigo?
E se tudo hoje mudar aquilo que vivi e guardei no baú de lembranças?
E se o cheiro do mar não for mais como eu me lembrava?
E aquele beijo?
E aquela estrada?
E aquela passada?

Voltei e não voltei.
Ainda fico vendo a vida pela janela de minha locomotiva, feito espectadora.
Mas, não haverá jeito, terei que desacelerar.
E descer.
E tornar a entrar.

Percebi que talvez um dos meus tênis tenha mesmo ficado plantado feito árvore num parque qualquer por aí.
Será que alguém achou?
Será que vai lembrar que era meu?
Será que eu ainda serei por lá?

Talvez eu precise mesmo apenas me convencer a comprar novos pares. E rápido!
A entender que o destino da locomotiva é inquestionavelmente a rota, que sua missão é andar, que seu porto seguro é a parada, onde quer que seja, a fim de recomeçar.

A locomotiva precisa seguir seu caminho, afinal, alguém a espera mesmo em alguma próxima estação por aí.

Recomeçar.
Eu, locomotiva e eles, tênis.

(Com amor para a equipe Ápice, que deixou mais saudade do que imagina...)

Sábado, Dezembro 13, 2008

A Tuba e o Tênis - Uma história da Volta da Pampulha


Diversidade.
Palavrinha que julgamos conhecer bem, mas que não raras vezes nos surpreende com uma aparição mais clara e nítida frente a nossos olhos.

E tudo se deu assim...
Estávamos todos nós reunidos, um grupo de corredores do Distrito Federal, em um hotel em Belo Horizonte em meio a aprimorados preparativos para a Volta da Pampulha 2008 - a tradicional (e adorável!) corrida de aproximadamente 17,8 km que aconteceria no dia seguinte.

Em verdade o hotel todo estava tomado pela "espécime dos homo-sapiens-corredores" e ali, só naquele hotel chegaram, vindo também de Brasília, mais 4 ônibus animadamente lotados. Com isso, o que se via por lá era uma diversidade incrível de tênis, shorts e agasalhos circulando pelos corredores e elevadores e o que se ouvia eram dicas e conversas a respeito de "pace", "carbogel", jantar de massas e dormir cedo.

Maravilhoso o clima interno, muito agradável o clima externo para encarar uma Pampulha não ensolarada e de temperatura agradavelmente amena. São Pedro realmente ajudou esse ano.

Delicioso sentir a alegre tensão que emanava daqueles rostos corredores, ansiosos por acordar às 6 da matina no dia seguinte, um domingo, (após 8 horas de estrada no dia anterior para muitos de nós) prontos para comer aveia, banana, carboidrato, suco e frutas, tudo dosado, programado e bem planejado.

Corremos.
E a largada ficou para trás até completarmos a volta e retornar ao mesmo ponto.
E a alegria ficou registrada nas fotos de diversos sites e fotógrafos, os tempos individuais foram marcos de superação para uma grande parte e todos saímos com cenas especiais gravadas na mente e no coração como a de passar por uma clínica de idosos e observar as senhorinhas sentadas à frente do portão acenando carinhosamente para a multidão que corria, que caminhava, que bufava e que se desafiava, passada a passada.

Definitivamente saímos de lá mais heróicos do que chegamos só de tocar as pequenas mãos infantis que nos alegravam pelo caminho, de tomar uma ducha improvisada pelos moradores e de cruzar a linha de chegada em ritmo de baticumbum e pão de queijo.

De volta ao hotel.
Missão cumprida e o merecido pequeno descanso.
Sim, pequeno, pois afinal teríamos mais 8 horas de estrada para retornar aos nossos afetos no Distrito Federal e encarar uma semana inteirinha de trabalho, lidando com as dores de panturilha, joelho e afins e tendo ao nosso lado emplastros, gel e muito gelo como companhia.

Mala na mão para o retorno.
E o elevador do andar se abriu.
Foi aí que surgiu o funcionário do hotel carregado de malas de um novo hóspede e que, ainda, empurrava com certo grau de dificuldade uma imensa caixa preta que, confesso, aos meus olhos leigos parecia um pequeno caixão ou uma daquelas imensas malas de equipamento de montagem de palco de algum popstar.

E a pergunta não calou:
- Moço, o que é isso afinal?
- Ah... Isso é uma tuba.
- O quê? Uma tuba?
- Sim, uma tuba.


Pronto.
E em uma fração de segundos lá estava eu, longe, longe, imaginando o que afinal de contas faria alguém estudar anos para tocar tuba. Não era sax, não era flauta, nem bateria, mas tuba.
O que faria afinal alguém sair de casa, pegar um avião, viajar kms (ou milhas, como preferir) para tocar tuba em algum lugar? E para quem?

Inusitado?
Não... De fato, apenas curiosamente diferente.
Foi exatamente isso que percebi.

E me dei conta de que muito provavelmente para alguém que faça da arte de tocar tuba a sua vida e a sua paixão, talvez seja igualmente incompreensível imaginar um bando de gente vindo de longe, suada, cansada, lesionada, gastando seu suado dinheirinho para acordar cedo numa manhã de domingo, calçar um tênis de aproximadamente R$ 500 Reais, enfrentar chuva, frio, cansaço, fome, dor e correr... correr... correr... quase 18 km para cruzar um tapetinho azul que apita e finalmente levantar os braços para o alto, colocando mais uma medalha no peito.

Será?
Fiquei imaginando quais seriam os desafios diários de alguém que treine e toque uma tuba (além de carregá-la, obviamente) e como ele falaria fundo aos diversos ouvidos e corações que pegam suas cadeirinhas e sentam no gramado (como no vídeo acima) para assistí-lo encantadoramente.

E nós, corredores?
Como conseguimos mobilizar pais, mães, filhos, crianças e velhinhos a sair de suas casas num domingo bem cedo e nos presentear com gritos de "- não páre agora!", "- está acabando!" e "vamos, fulano, vamos!"?

É isso, corredor.
Diversidade.
Deliciosas diferenças.

Homens e suas nuances, assim como no universo das cores.
Estilos, opções, amores e sonhos.
Metas, objetivos, desafios e prazer.

E assim vamos todos construindo um mundo interessante de se ver e viver...
Calçando o tênis e tocando a tuba.

Um grande abraço a todos,

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

Preparativos para a Volta da Pampulha



E naquela dia, pela rua, voava um papel ao vento.
Assim dizia:

"Controlei a alimentação de forma adequada essa semana.
Coloquei na mala meu par de tênis preferido, algumas roupas confortáveis e separei meu frequencímetro.

Arrumei as gavetas.
Organizei as pastas.
Fui ao banco.
E viajei.

Levei meu coração comigo.

Engraçado...
Notei que ele agora não anda mais por aí guardadinho na sacola.
Não pula mais da boca para fora rumo a sei lá onde e sei lá quem.
Não me tortura mais de tanto bater descompassado.

O rosáceo agora bate leve como se andasse na garupa de uma moto.
Viaja de boné na caçamba de um carro.
Se joga ao vento nas asas de uma delta.

Ah...
Ele agora é corredor.
Quando ousa ficar triste calça o tênis e parte.
Sobe morro e desce.
Vai para praia ao amanhecer e treina.
Pega forte o sol e namora a chuva.
Danado esse rapaz, heim?

É...
Um coração corredor.
Explorando paragens, rumos e desbravando sonhos."


Ela parou.
Leu aquela estranha nota.
Levantou o olhar curioso e pensativo rumo ao céu azul daquela tarde.
Sorriu...

Pegou a mochila cargueiro.
E partiu...

Terça-feira, Novembro 25, 2008

Sensações

Foto: Claudio Arruda - Eco Run DF 2008



Não, nada de batatinhas.
Nem de música romântica falando de emoções.
O foco é desbravar, conhecer, entender, reconhecer, encontrar.
Achar...

Encontrar o quê?
Conhecer?
Achar?
Entender?
Do que estamos falando afinal?

Indubitavelmente correr pressupõe conhecer melhor seu corpo, dia a dia, passada a passada.
Bip...
Bip...

Correr traz a regra de que cada dia é absolutamente diferente em algo daquele outro que se foi. Lembrar e compreender que são diversas as variáveis a considerar - tempo disponível, clima, disposição fisíca, alimentação, sono, ritmo de vida e trabalho, emoções - positivas e negativas, humor, capacidade de concentração, metas. Uma caixa de pandora recheada de diversas pequenas peças coloridas que propiciam, a cada percurso, a cada nova prova, o estruturar de um novo quebra-cabeças. Novas cenas, novos desafios, novas sensações.

E eu me perguntando: Como meu corpo reage ao frio? Como me sinto acordando bem cedo para treinar na chuva fina, na chuva forte? Qual meu horário preferido para treinar - à noite, pela manhã ou à tardinha? Como rendo mais? Qual o tênis mais adequado ao meu pé e à minha pisada? De qual gosto mais? Gosto de correr de bermuda ou de short? E o suor? Como lido com ele? Qual a sensação que me provoca? Me passa despercebido? E a água? Como reajo a ela e à sua temperatura no meio da prova?
Perguntas...
Muitas perguntas.
Algumas respostas.

Não, amigo leitor. Não se trata apenas aqui de calçar um par de tênis, vestir qualquer short e se lançar em uma pista. Estamos falando de mais, de muito mais.
Estamos falando de descobrir reações, conhecer limites, quebrar paradigmas, vencer dificuldades, explorar combinações e fatores, sentir... Reagir... Observar...

Sensações.
De sensor, de sensorial, de sensitivo (talvez), de surpreendente, eu ainda diria, de não ordinário, certamente.

Essa semana experimentei algumas delas, ou melhor, voltei a encontrá-las pelo caminho e confesso... Gostei.

Novamente voltei a sentir saudade de calçar o tênis mais vezes do que o de costume na semana, no entanto, sem gana de guerreira, mas com alma de aventureira. Sem meta ousada, mas apenas movida pelo embalar do corpo num suave vai e vem de movimentos de pernas, braços, respiração, olhar distante e alma sorridente.

Voltei a sair da toca desafiando o frio daquele fim de tarde e sentir a fina chuva acariciando meus cabelos ao cruzar a pista molhada e deserta. Gostei de estar só e não estar, nunca estar realmente. Gostei de observar a guerra travada entre frio e calor, umidade, suor e sede. Suspirei de sentir a grama molhada, a lama e reconhecer amistosamente o cheiro de chuva no ar.

E aí então, apenas mais uma vez em muito tempo, levantei cedo, ainda escuro, e observei as cores de um novo dia. O vermelho alaranjado do cerrado, as outras luminosidades coloridas despertas pelo sereno que já se ia, deixando sobre a relva úmida um banho prata ao encontro do sol com o verde.

Gostei de perceber a mudança de ritmo da cidade, da pista, do parque. Pessoas chegando, gente indo embora. Alguns esforçando-se muito, outros curtindo momentos a dois, a três, a sós.

Interessante sentir meu corpo dizer "Bom dia, Dona do Dia, o que fazes comigo hoje? Obrigada pela atenção."

E o calor chegou.
E o sol saiu.
E a perna doeu.
E parou de doer.
E a fome apertou.
E senti menos sede, menos cansaço, mais disposição.
E me permiti dormir mais naquele dia e menos naquele outro.
E mudei o foco e vi a mesma coisa de outra forma.
E tornei a ver.
E observei novas cores e nuances.
E estabeleci novas metas.
E andei com outras pessoas e vivi novas histórias, em novos cenários, com diferentes sensações...

Sim, amigo, é vero que viver é experimentar - positivamente, eu acredito.
Mas correr, muito mais do que simplesmente malhar, é, acima de tudo, o exercício de observar... Sensações.

Para o querido amigo treinador e a menina pequena, pelo papo inspirador pós-parque.